quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Eu e eu mesma




NY 14/09/2007



Já passavam das 4h da manhã do dia 21 de agosto. O vôo rumo a uma nova experiência sairia em uma hora. Estava atrasada, como de costume. As malas no carro. A casa vazia. Me despedia do meu espaço... Um impulso quase inexplicável me fez colocar aquele livro na bolsa e partir. Poderia ter sido qualquer outro...
... Aquele livro... (suspiros)... Só viria a ser aberto duas semanas mais tarde, num dia de absoluta tristeza e agonizante sensação de solidão.
Tudo me pareceu familiar. Era como se fora eu a destinatária daquelas cartas, de tais palavras. Interagi com aquele livro (Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke) durante uma tarde bucólica no Central Park.
Não. Longe de mim qualquer pretensão ou predisposição para poeta, mas ali encontrei palavras e sentimentos em comum: vida, solidão, tristeza, amor...
Engraçado essa vida da gente. Engraçado como nossas respostas aparecem de repente. Engraçado como sentimentos tão assustadores são, na verdade, nossos grandes mestres. Lembro-me de ter escrito sobre isso, - sem muita segurança, confesso -, a um certo e importantíssimo alguém. Hoje, posso lhe dizer, era mesmo verdade.

“Que seria, com efeito, uma solidão que não tivesse grandeza? Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer, por mais barata e banal que fosse; por uma aparência de acordo insignificante com quem quer que seja; com a pessoa mais indigna. Mas talvez sejam essas, justamente, as horas que ela cresce, pois seu crescimento é doloroso como o de um menino, e triste como o começo das primaveras. Mas tudo isso não o deve desorientar. O que se torna preciso é no entanto isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar... Essa sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar . E partindo dela, encontrarás todos os caminhos. Todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo.

...
Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz. Como as doenças tratadas superficialmente e à toa, elas apenas se escondem e, depois de leve pausa, interrompem muito mais terríveis. Juntam-se no fundo da alma e formam uma vida não vivida, repudiada, perdida, de que se pode até morrer. Se nos fosse possível ver além dos limites de nosso saber e um pouco além da obra de preparação de nossos pressentimentos, talvez suportássemos às nossas tristezas com maior confiança que as nossas alegrias. São, esses os momentos, em que algo de novo entra em nós, algo de ignoto: nossos sentimentos emudecem com embaraçosa timidez, tudo em nós recua, levanta-se um silêncio, e a novidade, que ninguém conhece, se ergue aí, calada, no meio.
Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se tornaram estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque num relance todos sentimento habitual e familiar nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Eis porque a tristeza também passa: a novidade em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração e penetrou o mais íntimo recanto. Nem está mais lá – já passou para o sangue. Não sabemos o que houve. Facilmente nos poderiam fazer crer que nada aconteceu. No entanto, ficamos transformados, como se transforma uma casa que entra um hóspede. Não podemos dizer quem veio. Talvez nunca venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento aparentemente anódino e imóvel que o futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a “acontecer” -- isso é, quando sair de nós ara chegar a outros – senti-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim.” Rainer Maria Rilke.

No more pictures for while….


NY 10/09/2007



Dias que não começam bem têm, normalmente, 90% de chances de não acabarem bem. Não sei por ainda insisto com esses 10% . Estive na iminência de pegar o trem de volta para casa e me trancar em meu quarto pelo menos umas 10 vezes ao longo do dia...
Enfim. Ontem foi um dia duro. "Hard" como se diz por aqui. Que já começou dando todos os indícios de seria assim. Acordei de ressaca e atrasada. Tudo muito recorrente. Porém, antes mesmo de abrir os olhos dei início à sucessão de ações infelizes que fizeram dessa sexta-feira um dia particularmente irritante. Um movimento brusco, proporcionado por um sonho desagradável, levou meu celular ao solo com uma estranha força. Quebrou-se a tela. Problema número um: perdi meu principal meio de comunicação: as abençoadas e baratas mensagens de texto. Pronto. Já tinha motivo suficiente para ficar em casa e decretar que meu dia de folga seria realmente de folga. Mas não.... a pessoa é do tipo de honra compromissos....
Tinha marcado com um suposto locatório de olhar um apartamento em Manhatan para alugar. Problema número dois: nome, endereço e telefones do indivíduo estavam gravados no aparelho que espatifou-se. Num esforço sobrenatural, consegui resgatar de minha memória alguns números e partes do nome da rua do local combinado. Fui. Sempre corajosa.
Peguei o trem e alguns poucos quilômetros mais tarde uma voz estridente anuncia que há fogo na próxima estação. Como assim???? Sim, pegou fogo (em NY tudo é possível, lembra?) .... e a viagem, pelo menos, naquela linha não poderia continuar... A essa altura eu já estava 20 minutos atrasada. Somando aí mais uma hora do percurso até o centro da cidade, concluí que chegaria ao meu destino cerca de uma hora e meia mais tarde. Só que não previ o que era mais previsível: eu me perderia. E essa uma hora e meia subiu para duas horas e quarenta minutos. É claaaro que o cara já tinha vazado. Tudo bem, vai... Eu também teria ido...
Decidi encontrar a Anita, que também não andava muito entusiasmada, para um happy hour. Me perdi de novo, quase cruzei a cidade a pé, e quando consegui chegar me deparei com três copos vazios de margarita e uma Anita naquele grau. Pegamos um taxi para um lugar mais legal... “Pô, hoje é sexta-feira.. Vamos curtir a night...”. E aí, aquela partezinha de memória que usei para resgatar o endereço do cara, provou que faria falta. Esqueci minha câmera novinha dentro do automóvel!!!!! Chorei de raiva. Me restavam duas opções: a casa (a uma hora dali) ou a jaca (ao alcance da mão. Ou do pé, nesse caso.). Fiquei com a segunda opção. Tomei meu primeiro porre nos Estates. Não lembrava de nada no dia seguinte. Menos mal. Tem dia que é melhor nem lembrar que aconteceu.

"Um verdadeiro matadouro"


NY 06/09/2007

Não consigo me conformar com a colossal distância entre a minha home sweet home e o centro de Nova Iorque, onde TUDO acontece. (E tudo, nesse caso, não é força de expressão). Por isso, constantemente, sou tomada por impulsos desbravadores e absolutamente idiotas, que invariavelmente, rendem cerca de duas horas dentro de um trem. De qualquer forma, e graças a um pequeno traço de personalidade poliana que consegui herdar de meus antepassados, consigo, sim, enxergar "lados bons" nesses perdidos pela Big Apple. Ainda que eles aconteçam depois de um dia inteiro de trabalho, à 1h da madrugada. Por exemplo: não é todo dia que se vê um mendigo todo sujo e rasgado curtindo uma musiquinha de seu I.pod e se atualizando com as notícias fresquinhas do New York Times... Só no trem Q, rumo ao bairro russo chamado Manhatan Beach. Foi também nesse mesmo trem que vi uma figura muito peliculiar e estilosa: um negro alto, enorme, de terno, camisa, cinto, gravata e chapéu pretos e sapatos brancos envernizados que combinavam perfeitamente com um enorme relógio de pulso que não funcionava!!! Ontem, depois de horas zanzando sozinha pela cidade, cheguei a três constatações implacáveis: se mapa servisse pra alguma coisa, não teria tanta gente perdida em Nova Iorque, e nunca, jamais, saia de casa sem um i.pod e uma câmera fotográfica.
Hoje, meus devaneios (com a ajuda da Anita) me levaram para Chinatown. Um bairro chinês que é, definitivamente, um matadouro para a fineza alheia... Presenciei um atropelamento... Foi triste. Entretanto, minha veia jornalística não me permitiu não fotografar... As pessoas olharam feio... Fingi que não era comigo. Um cheiro azedo na rua que parecia nos seguir, camelódromos e vitrines bizarras com patos e rãs montaram minha impressão sobre o bairro. Depois de alguns quarteirões, encontramos Little Italy. Em boa hora, diga-se. Meu estômago já estava quase do avesso...
Tarde horas marcavam no relógio e nós, muito corajosas, apostamos na sorte, e não mais nos mapas, para chegar em algum lugar legal... Saltamos na sexta avenida ... Adivinha? Bar brasileiro bombando!! hehhe
Foi divertido e ainda rendeu uma champa pra comemorar!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Babel


NY 01/09/2007


Faz pouco mais de uma semana...
Nossa! faz pouco mais de uma semana!! Repeti minha surpresa durante todo o dia. Engraçado isso... Já tive tantas impressões de Nova Iorque (boas, ruins, contraditórias, instigantes, assustadoras, bizarras...) que acabei desistindo de tentar defini-la. Encaixá-la em algum padrão é perda de tempo. Ganha-se mais, simplesmente, vivendo essa Babel. Essa cidade de todas as línguas, de todos os tipos, de todos os credos. Cidade das oportunidades... E é muito bom sentir-se parte desse zoológico.
Enfim... tanta coisa já aconteceu... em uma semana... que sinto como se vivesse aqui há anos...
Dois desses acontecimentos valem à pena mencionar aqui: 1. descolei um trampo. Restaurante legal. Gente bacana. Lado granfino da cidade. Recebo pessoas. Sorrio. Gasto meu ainda parco inglês. E os encaminho às mesas. 2. Comprei uma câmera para compartilhar impressões. Nada mais conveniente do que aliar os fatos... No álbum, os primeiros registros da minha nova aquisição durante a comemoração de meu primeiro dia de hard work. "Enjoy"

domingo, 2 de dezembro de 2007

Homesick


NY 26/08/2007

Dizem que é um aperto incômodo no peito que às vezes aparece para tirar a paz de quem está longe. E não tem analgésico que dê conta, nem novidade que dê jeito. Quando ele vem, de duas, uma: sentar e esperar passar ou... lembrar, lembrar e lembrar.... e chorar... e sorrir... e viver essa saudade... e curtir a nostalgia... e desejar viver aquilo de novo... um dia... e suspirar...
O domingo trouxe consigo uma lua cheia daquelas. Em meio a pessoas e fatos novos, elementos de uma outra vida - Chico ao fundo talvez fosse o mais característico deles - pincelavam uma noite diferente. Enquanto me inteirava e me entusiasmava com tantas oportunidades e possibilidades, olhava para o céu e me perdia em recordações adoráveis. Agora, doces...Um riso solto e despretensioso aguçou a curiosidade alheia. E haja história para contar... Hoje pode. Hoje é domingo...

Vida nova





NY, 22/08/2007

Saltei. O coração ainda está disparado. O nó na garganta começa a se desfazer... Muita coisa há para absorver.
Nova Iorque estava meio melancólica como meu estado de espírito... Chovia fininho e fazia frio. Senti um vazio enjoado enquanto esperava o Rafa do lado de fora do aeroporto. O medo bateu forte com o vento que veio na cara. Me senti aquecida e bem acolhida pelos amigos que me receberam... Um brinde pela chegada de uma nova integrante da casa friends puxou uma noite de bons papos embalada por acordes musicais de primeira linha. Como de costume, dormi antes de todos.
Hoje é dia de explorar!

A riscar

BSB, 18/08/2007

Eu nunca pulei de pára-quedas, mas acredito já ter vivido algumas vezes, — inclusive agora —, a sensação que antecede o salto. E sempre com a mesma intensidade. Lá em cima, a quilômetros de distância da terra firme, o vento que entra forte pela porta do avião meio aberta congela por dentro e faz suar por fora. Amarra um nó na garganta e arrepia até o último pêlo do corpo. Você hesita olhar para baixo. Uma desistência, a essa altura do campeonato, teria um efeito devastador sobre a auto-estima. No fundo, bem lá no fundo, você sabe que a experiência vai ser alucinante, incrível, única, eu diria. Sabe também que vai chegar lá em baixo uma nova pessoa. Mais confiante, independente, interessante até. Mas o medo de se espatifar paralisa. E você fica ali, estático, taquicárdico, na expectativa de que um ataque fulminante de coragem o faça saltar.... E só falta saltar... E eis que a adrenalina cumpre o seu papel. Partiu. Até lá em baixo. Amyr Klink escreveu: "Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e, simplesmente, ir ver". Eu vou lá ver. Espero ter boas histórias na volta.